Firminas em fuga: de Salvador da Bahia a Foz do Iguaçu
- Direito à poesia - Laboratorio de Traducción

- 6 de ago.
- 8 min de leitura


Durante o primeiro semestre de 2026, dedicamos parte das oficinas de Direito à poesia, na Penitenciária Feminina de Foz do Iguaçu, à leitura, ao comentário, à escrita de respostas poéticas e à tradução para o espanhol de alguns poemas do livro Firminas em fuga (Poesia?). Publicado pela editora Ogums em 2023, Firminas em fuga (Poesia?) reúne poemas de mulheres privadas de liberdade na cidade de Salvador, Bahia, que participam do projeto feminista e abolicionista negro Corpos Indóceis e Mentes Livres. Esse projeto é coordenado, desde 2010, pela professora Denise Carrascosa, da Universidade Federal da Bahia, no Conjunto Penal Feminino do Complexo Penitenciário.
Firminas em fuga (Poesia?) é uma das muitas produções realizadas pelo coletivo ao longo de seus anos de atuação. O título faz referência a Maria Firmina dos Reis, escritora negra do século XIX, até pouco tempo muito invisibilizada, que escreveu criticamente sobre a escravização da população negra em seus contos e romances. Já a pergunta do subtítulo, Poesia?, remete aos desafios que este livro coloca. Em vez de buscar se encaixar em uma definição estabelecida, a obra questiona o que entendemos por poesia e quem é considerado apto a escrever poemas. E como sugere o texto de apresentação que compartilhamos no início desta entrada, o livro é apenas um vestígio de processos que o ultrapassam, processos que atravessam os corpos e as histórias neles inscritas.
Para quem quiser mais informações sobre o projeto Corpos Indóceis e Mentes Livres, compartilhamos um link para uma entrevista de Denise Carrascosa, de 2024: https://www.geledes.org.br/escrever-para-resistir-a-literatura-no-carcere-como-ferramenta-abolicionista/

Diálogos
A duas mulheres paraguaias participantes de Direito à poesia propusemos que escolhessem alguns poemas do livro para traduzi-los para o espanhol. Às participantes brasileiras, que escolhessem poemas para comentar e, se quisessem, escrever um poema em resposta aos que gostassem. A ideia, como nos últimos exercícios de leitura e tradução que compartilhamos neste blog, era transpor fronteiras e muros. Promover encontros e abrir sentidos nos espaços de encerramento e isolamento.
A seguir compartilhamos parte do material que resultou desse encontro textual entre mulheres privadas de liberdade em Salvador e mulheres privadas de liberdade em Foz.
Uma dúvida de tradução: "engenho"
As mulheres paraguaias nos disseram que usaram como critério de seleção dos poemas a traduzir a facilidade e a brevidade. No caso de Blanca, como se verá, a maioria dos poemas traduzidos é de caráter erótico. Griselda, por sua vez, traduziu poemas de temáticas diversas e compartilhou, durante um dos encontros, suas traduções de dois poemas que fazem referência à continuidade entre as prisões e o período da escravidão no Brasil, um tema central para Corpos Indóceis e Mentes Livres.
Griselda foi a única que compartilhou uma dúvida de tradução em um dos encontros: não sabia como traduzir "engenho". Uma das participantes brasileiras explicou que se referia aos canaviais, ou seja, às fazendas que produziam açúcar com população escravizada. Acrescentamos que a palavra "ingenio" também existia em espanhol, e que os ingenios foram muito populares no Caribe (depois, com pesquisas na internet, comprovamos que também houve ingenios no Paraguai e no norte da Argentina). Griselda, no entanto, não se convenceu a traduzir por "ingenio" por não conhecer a palavra, então, depois de um diálogo que se estendeu por mais de um encontro, sugerimos que usasse um termo que lhe fosse familiar. Assim, acabou optando pela palavra "chácara".


Da autoria
Alguns dos poemas comentados ou respondidos com outros poemas pelas participantes brasileiras fazem parte do conjunto selecionado por Blanca Cardozo e Griselda Esther para tradução. Compartilhamos as imagens das versões manuscritas de todos os poemas traduzidos por elas e, na versão em espanhol desta entrada, as transcrições com intervenções mínimas, principalmente de adequação às normas ortográficas. Os demais poemas e os outros textos de Firminas em Fuga (Poesia?) foram traduzidos, para a versão em espanhol da entrada, pelo Laboratório de Tradução da UNILA. O principal responsável por esse trabalho foi Sergio Quintana Castro, que realizou as traduções tomando como referência o seu espanhol cubano.
Ao longo das postagens, são apresentadas imagens do livro Firminas em fuga (Poesia?), bem como fotografias tiradas pelas participantes das oficinas de Direito à Poesia, com o apoio de Francisco Iza de Lima e Serena Vinicius Zorel, na Penitenciária Feminina de Foz do Iguaçu. Os créditos completos de todas as pessoas que participaram da elaboração desta publicação encontram-se ao final da postagem.


Pôr do sol
Cláudia Santana
Ah pôr do sol que saudade de você!
Não tinha coisa mais linda de se ver
Sentada na minha varanda eu assistia
Você atrás das lindas montanhas
Se escondendo.
Ah pôr do sol,
Em breve voltarei a te ver.
Comentário de Vanessa: Aqui a gente não vê o pôr do sol. Tipo, se a gente quiser ver quando a gente está aqui embaixo, se a gente quer ver uma nesga do sol, a gente tem que subir em cima do vaso, né? Porque no outro lado é o banheiro, tipo, eu que sou baixinha não enxergo. Aí tem que subir em cima do vaso e ficar olhando. E aí tem as grades, que os quadradinho é desse tamanho, então você não vê, né? As gradinhas, os quadradinhos desse tamanho assim, você olha pelo buraquinho, você vai ver tipo tudo quadrado, né? Ver o sol nascer quadrado.
Comentário de Tainara: Às vezes, quando chove, só se der um chuvão mesmo para você conseguir ouvir bem nítida a chuva. Lá pra trás, que é mais aberto, que tem uma lata, dá pra ouvir. Mas é bom pra você sentir, às vezes. Às vezes, você necessita um pouco sair daquele ambiente. E mesmo estando presa, sentir um ar diferente. E daí você, além de você olhar o sol, você coloca o seu nariz lá, que tem umas latas, só assim [estica o nariz]. Só pra sentir um pouco da brisa, um pouco do cheiro da grama, um pouco da terra molhada, um pouco do vento, um pouco do ar.
Sozinha
Kelli Cristina Neves
Marcas de uma vida sofrida
Marcas de uma infância perdida
Marcas de trabalho escravo
Marcas essas que trago no corpo e no coração
Marcas que me fazem crescer
Marcas que fizeram lutar
Marcas que conto para a juventude
Aprender a lutar.
Marcas que dizem quem eu sou
Marcas que me fazem guerreira
Para nunca parar de lutar.

Comentário de Cristiane: Eu gostei deste poema por ter muito que ver com a minha vida, eu tive muitos problemas na minha infância, eu tive muitas perdas, praticamente eu não tive uma infância… Então aqui são marcas que fizeram cada dia eu lutar, eu vencer, eu aprender, entendeu? E que me fizeram hoje ser uma mulher guerreira. Marcas também que eu carrego aqui dentro da cadeia, muita mágoa, muita tristeza, muita solidão, e que cada dia faz eu lutar mais ainda.
Delírio
Geise Ângela
Em noites de chuva,
As lembranças são incontroláveis
Meu corpo vibra,
Traduzindo a minha vontade
Ah, saudade do teu cheiro
Do seu corpo e da sua voz,
Língua do céu da boca
Saudade demais de nós
Meu corpo estremece,
Gemidos fazem festa silenciosa,
O vento deixa o seu aroma
Que jamais sairá da minha mente.

Tristeza
Queilane Conceição
Estava sentada colada nas grades
Tentando diferenciar saudade e solidão.
Mas com o tempo,
Descubro que saudade traz solidão.
Podemos deixar esse sentimento
Que machuca o seu coração.
Com uma leve situação,
Que do nada vira um sorriso infantil
De um rosto triste em expressão.
Poema resposta de Luz
Triste são os pensamentos que não conseguem mudar,
sonhos que agora é impossível realizar.
Triste é eu trabalhar e não conseguir gastar.
Triste é eu sem visita presencial neste lugar.
A tristeza por momentos me consome,
mas sou forte
pois tenho fé que detrás dessas grades
em breve irei sair
para enfim sorrir e toda essa tristeza que sinto
será esquecida

Negros
Vanilda Coutinho Souza de Oliveira
Negros escravizados
Pelos senhores de engenho
Trabalhos forçados
Castigos com chibatadas
Amarrados ao pelourinho.
Ver o seu sangue escorrer
Sobre seu corpo suado
Caindo ao solo.
Gemidos calados,
Sonhos escorridos,
Navios negreiros,
Saudades da sua terra mãe
África.
Guerreiros valentes,
Lutando, sofrendo,
Buscando sua liberdade.
Negros
Tradução: Griselda Esther
Negros esclavizados
Por los señores de chácaras
Trabajos forzados
Castigos con chicotadas
Atados en Troncos
Viendo su sangre escurrir
Sobre su cuerpo sudado
Cayendo al suelo
Gemidos callados
Sueños escurridos
Navíos negreros
Extrañando su Tierra madre
África
Guerreros valientes, luchando
Sufriendo
Buscando su libertad.


Ser ou não ser
Jeomara Souza
Ao cair da noite
Pensamentos íntimos
Me consomem.
Ser ou não ser,
Só sei que me deleito
De prazer.
Um lugar onde estou
Um lugar onde me vejo
Bem longe daqui
Esse é o meu desejo.
Nesse momento solidão
Mas em breve haverá
Grande alegria em meu coração.
Com grandes erros
Arrependimentos vem
Mas há de vir um recomeço também.
Em algum momento
Há de vir
Pois sei que terei que me permitir
Para que reine a paz
O amor e a alegria
Novamente dentro de mim.
Poema em resposta de Jennifer
Ao cair da noite, pensamento vem
Por causa da minha imaturidade
do meu crime, virei refém
Saudades da família, dos filhos
e dos amigos também
Entre ser ou não ser
eu prefiro ficar bem
Do lado de lá, do lado de cá,
meu prazer vai ser
quando meu alvará cantar
Nos teus braços meu amor
Roquelina Gomes
Nos teus braços meu amor
Eu sinto o meu corpo livre.
Tão livre como um pássaro voando.
Me sinto no meu ninho,
Me perco em seus carinhos.
Ah meu amor,
Eu sei que a vida passa e temos
Que buscar nos sonhos um pouco
De alegria,
Fugir deste dia a dia.
E pensar no amor e na alegria de te ter,
Te amar,
De nos teletransportar nos nossos sonhos,
De amar, de se dar e sorrir.
Sorrir de tudo dessa infame vida,
Quando tudo isso passar.
E você vai me amar,
Me levar para além das nuvens e
Eu vou gritar livre para amar
E nos teus braços me aninhar.

Causas
Geise Ângela
O abafar das nossas dores
Engasga e corrói
Entre a voz e o silêncio
Que existe entre nós.
As grades da prisão
Não me deixam no chão,
Pois as promessas de Deus
Estão em meu coração.
Comentários de Angélica:
O que chamou muito a minha atenção foi a última frase, onde fala que as grades não me deixam no chão, que as promessas de Deus estão em meu coração. Levei essa frase para mim como um ato profético, coloquei aqui na mente e eu vivo aquilo, eu vivo. Eu coloco para mim que as promessas de Deus estão no meu coração, que as grades não me deixam no chão. A situação que eu vivo, de estar aqui sozinha, longe da família, de ter perdido tudo por influência dos meus atos, não vai me deixar no chão.
Amizade
Queilane Conceição
Amizade de verdade é aquela que
Chora e sorri com você
Que no momento certo
E atitudes certas
São demonstradas
E somos literalmente conquistadas.

Poema em resposta de Vanessa, escrito com sua amiga Kauane Bueno
Eu tenho um amigo.
Eu tenho um amigo que fecha comigo.
Quando precisei, ele foi meu abrigo.
Segurou minha mão nos dias difíceis.
Por isso que digo, aja na transparência
para ele não falhar contigo.
Esse é meu amigo.

Lembranças
Cláudia Santana
Ah lembranças que não saem da minha mente
Lembranças dos seus lábios tocando os meus
Que se formam em grandes beijos macios
E quentes
Que nos levaria a loucuras,
Ah que lindas lembranças
lambanças

Recuerdos
con propuesta de cierre del Laboratório de Tradução
a la versión de Blanca
Ay recuerdos que no salen de mi mente
Recuerdo de sus labios tocando los míos
Que se forman en grandes besos suaves
y calientes
Que nos llevó a locuras
Ay que lindos recuerdos
revuelos


Da elaboração de esta entrada participaram: Blanca Cardozo, Brisa Abigail Cañiza, Bruna Macedo, Cibelle Motta, Cristiane Leite, Elida Soares de Almeida, Franciane Gilmara C. de Lima, Francisco Iza de Lima, Geraldine Regino Castro, Griselda Esther, Jeniffer Carolina dos Santos, Mario Torres, Nicole Alejandra Sinza Méndez, Romilda Terezinha Jagas, Sandra Aparecida da Silva, Serena Vinicius Zorel, Sergio Quintana Castro, Simone Fatima, Suelen Veloso, Tainara Regina da Silva Neves, Vanessa Aparecida da Cruz.




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